O maior pensador do cinema em todos os tempos chama-se Jean-Luc Godard. Ele fez do cinema um ato de pensar. Quando o cinema se tornou uma linguagem, Godard a fez gaguejar. Quando o cinema adquiriu uma identidade, Godard a arrastou num vetor-louco. Quando o cinema consolidou um tempo-espaço convencional, Godard transformou o tempo em movimentos aberrantes e o espaço em situaçþes paradoxais. Em Godard, o cinema ĂŠ eterno retorno; ele estĂĄ sempre nascendo, nunca ĂŠ dado em uma convenção. Godard fez um cinema pensante sempre em construção, sem qualquer finalidade a nĂŁo ser o ato de pensar e inventar o novo. Um cinema crĂtico no sentido em que Friedrich Nietzsche deu Ă crĂtica.
O cinema godardiano implode a moral para fazer coincidir o pensamento com a vida. Um cinema que promoveu a transvaloração dos valores universais atravĂŠs de uma Ăşnica imagem. Ă a bela fĂłrmula de Godard, que encantou Gilles Deleuze: “nĂŁo uma imagem justa, justo uma imagem”. Cinema perigoso, divino e maravilhoso. Entre um plano e outro, uma fenda propĂcia Ă entrada do caos. Um caos capaz de questionar valores transcendentes, modelos, convençþes e tudo aquilo que cristaliza o pensamento. O cinema godardiano rompe com o mundo mediado por um esquema sensĂłrio-motor, conforme explicou Deleuze, mas que, na medida em que constata a impossibilidade de pensar o mundo atravĂŠs daquele mecanismo, passa a crer no mundo, crer no impensado do mundo, crer no fora que demole qualquer totalização enquanto saber indiscutĂvel.
O cinema de Godard escapa aos microfascismos e aos fascismos de Estado porque o mito como totalização e saber axiomĂĄtico ĂŠ substituĂdo pela fabulação, isto ĂŠ, pela criação de novos mundos. Godard soube ver e filmar como ninguĂŠm a relação necessĂĄria entre um dado e um nĂŁo-dado, entre um atual e um virtual, entre o possĂvel e o impossĂvel, entre o pensado e o impensado. Acima de tudo, Godard soube valorizar o bom cinema sem se preocupar se ele havia sido produzido em Hollywood ou no Terceiro Mundo. Chamou Alfred Hitchcock de mestre. Chamou a atenção para a importância da decupagem clĂĄssica. Fez cinema de gĂŞnero. Consciente ou inconscientemente, todo bom cineasta passa necessariamente por um Devir-Godard. O Devir-Godard ĂŠ o pensamento que nasce e se auto-destrĂłi para garantir a perenidade do ato de pensar; ĂŠ a construção da imagem que quebra a verdade para impedir o totalitarismo. O Devir-Godard ĂŠ fluxo, vetor-louco, olho-idĂŠia, perspectivismo estranho, o riso do pensamento, gozo da diferença, intensidades livres, numa palavra: uma vida em jogo. RĂŠquiem ao Sr. Jean-Luc Godard.

terça-feira, 13 de setembro de 2022
Devir-Godard

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